A CRISE DA AFETIVIDADE HUMANA – O mito de Narciso

A palavra ‘afeto’ vem do latim affectur (afetar, tocar) e constitui o elemento básico da afetividade. Segundo caracterização do Dicionário Aurélio (1994), o verbete afetividade está definido como um conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor, insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza.

Atualmente o nosso planeta está passando por um momento de grandes transformações técnico-científicas, como também de grandes fenômenos de desequilíbrios sociais e ecológicos. Ao lado destas perturbações técnico-científicas e ecológicas, o padrão de vida humano, tanto individuais quanto coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deteriorização. Podemos observar a deteriorização das redes de parentesco reduzidas e a vida doméstica gangrenada pelo consumismo apoiado pela mídia de massa. As relações humanas de afetividade também são influenciadas por esse quadro de acontecimentos.

Poderíamos classificar os problemas de relacionamento hoje em dia como uma espécie de ‘mito de Narciso’. Uma sociedade excessivamente narcisista, ego centrada, onde vemos espelhos e vídeos por toda a parte. Com o excesso da individualização do sucesso, da imposição de uma auto-imagem do corpo, também aqui representada como uma metáfora do sucesso e sua busca recorrente de felicidade. O espelho de si mesmo toma muita importância. O mito de Narciso, na mitologia grega, representa a incapacidade de amar ou, mais precisamente, o mito do amor impossível. Representa também a incapacidade do homem de se conhecer, de se autodesenvolver, ficando preso a sua própria imagem. Um espelho sempre estará lá para admirar a si próprio.

Narciso ficou condenado ao si mesmo. Contudo, originalmente na mitologia grega, o mito de Narciso é apresentado com Eco. A seguir apresento um breve resumo do mito.

A ninfa Eco era uma bela mulher, amante dos bosques e dos montes. Mas, tinha um defeito: falava demais e, em qualquer conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra. Ela foi condenada por Juno a repetir ela mesma. Continuarás a dizer a última palavra, mas não poderás falar em primeiro lugar, disse a deusa Juno. Certo dia, Eco viu Narciso, que era um jovem muito belo, numa caçada na montanha. Desse dia em diante, Eco se apaixonou por ele e seguiu os seus passos. Contudo, Eco não podia lhe dirigir palavra nenhuma. Isso estava fora do seu poder, não podia-lhe mostrar o seu afeto por Narciso. Esperou, com impaciência, (todo egocêntrico é impaciente) que ele falasse primeiro, a fim de que pudesse responder. O jovem Narciso tendo se separado dos companheiros, gritou bem alto:

  • Há alguém aqui?
  • Aqui – respondeu Eco.

Narciso olhou em torno e, não vendo ninguém, gritou:

  • Vem!
  • Vem! – respondeu Eco.
  • Por que foges de mim? Perguntou Narciso. Eco respondeu com a mesma pergunta.
  • Vamos nos juntar – disse o belo jovem.

A donzela repetiu, com todo o ardor, as mesmas palavras e correu para junto de Narciso, pronta a se lançar em seus braços.

  • Afasta-te! – exclamou o jovem recuando. Prefiro morrer a te deixar possuir-me.
  • Possuir-me – disse Eco.

Mas tudo foi em vão. Narciso fugiu correndo e ela foi esconder sua vergonha no recesso dos bosques. Desse dia em diante, Eco se retirou nas cavernas, vivendo entre os rochedos até que se definhou totalmente e seus ossos viraram pedra, restando apenas a própria voz. São nos rochedos que ouvimos a nossa própria voz nos ecos. Daí a origem do mito de Eco. Ficou condenada a ficar repetindo sempre a mesma coisa. Ainda assim continuou disposta a responder a quem quer que a chame e conserva o velho hábito de dizer a última palavra. E onde anda Narciso?

Narciso desprezou todas as ninfas que o procurava, como havia desprezado a pobre Eco. Certo dia, uma donzela que tentara em vão atraí-lo implorou aos deuses que ele viesse algum dia, a saber, o que é o amor e não ser correspondido. A deusa da vingança, Tirésias, ouvia a prece e atendeu-a. Como vingança, todo o ciúme tem esse aspecto doentio. É por isso que vemos frequentemente nos noticiários paixões doentias terminando em tragédias televisivas novelescas, geralmente por pessoas altamente vingativas, ciumentas, com perfis de amores possessivos, altamente ego centradas, onde não se admite que o outro tenha uma vida independente ou ‘fora’ da relação exclusiva a dois.

O que podemos aprender com esse mito. O egoísta, centrado na sua própria imagem, midiática, narcisista, necessita apenas dele mesmo. O outro sempre será descartado. O outro, se não for dele, mata-se ou mesmo, se descarta. Constrói um mundo de relações sempre para ele, onde o espelho é a sua paixão. Quando não, no afã de envolver outro, ou outra, nas suas relações afetivas, lhe deseja a sua própria imagem. Como se fosse um auto-consumo de si mesmo. Podemos ver que essa crise dos relacionamentos da afetividade é de natureza altamente narcisista. Queremos ser vistos, nas telinhas de qualquer tela plana. Queremos fazer “autorretratos”. Nem que seja num desastre, onde os mortos se espalham nas ruas, mas mesmo assim vemos pela tv’s pessoas dando ‘tchauzinhos’, nas suas mãozinhas puras e singelas, ou curiosas, apontando a face nas câmaras para ‘aparecer’. São verdadeiros ‘BBB’s’ de tragédias, ou seja, é uma espécie de ‘voyeurismo trágico’. Realmente temos mais uma tragédia paradoxal no nosso tempo.

Anúncios

Sobre Biotopos

Biólogo, auditor de sistemas de gestão certificados (ISO 14001, ISO 9001, OHSAS 18001, NBR 14789 - CERFLOR, NBR 14790 - CERFLOR CoC, FSC CoC e MSC-ASC CoC). Mestre em produção-ecologia aquática (UFBA, 1993), especialista em tecnologia ambiental em industrias florestais (Suécia, 1996), pós-graduação em Gestão Empresarial e Responsabilidade Social (IBPEX, 2007), Coach e Mentor (Sistema ISOR) e Terapeuta Transpessoal, com abordagem transdisciplinar. Estudioso de Biologia Cultural (Maturana e X. Dávila), Psicologia e Ecologia Integral (K. Wilber - AQAL) e das disciplinas das ciências da complexidade (E. Morin). Proprietário da empresa de consultoria em gestão ambiental e sustentabilidade - Biotopos.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s